sábado, 15 de setembro de 2018

3. O que fazer quando não se pode fazer nada?

Sim, sem dúvida é um exagero! Então, vou começar explicando como funciono.

Segundo minha mãe, uma das primeiras palavras que falei com firmeza foi “rua”. Ela lembra que quando meu pai chegava, eu logo pedia para ir para rua. Parece que desde pequeno faz parte da minha natureza querer estar fora de casa. Quando digo que não posso “fazer nada”, é porque não consigo ir para a rua vagar. Rua é tudo!! Gosto de estar em espaços abertos. Mesmo para estudar, é mais fácil me concentrar sentado num banco de praça que num “confortável” gabinete. Meu “escritório” é um banco no mirante perto da pedra de Itapuca. Lá fiz muitos trabalhos e li alguns livros. Não é à toa que me defino como um andarilho.

Na minha adolescência, fiquei muitos anos “preso” em casa. Saía para a escola pela manhã e quando voltava na hora do almoço, só podia sair novamente no dia seguinte. A tarde era para estudar e me sentia solitário e “preso”. E não estudava! O final de semana era a liberdade. Pegava minha bicicleta e sumia no mundo.

Talvez como reação aos anos de “confinamento”, ficar em casa sem poder sair me dá um sentimento ruim. Um final de semana sem sair de casa é angustiante. Tudo fica melhor com uma caminhada na praia ou um passeio leve de bike.

Mesmo em relação ao trabalho, a escola em Petrópolis, onde leciono, fica cerca de duas horas da minha casa. Em um final de semana prolongado, com feriado, posso levar até seis horas para voltar. Mas fico feliz em pegar a estrada. É muito bom me mover, adoro dirigir.

Então, como estou aguentando esses meses de confinamento?

Tinha muitas dúvidas se não enlouqueceria com tanto tempo sem autonomia e preso em casa. Entre a decisão de operar e o procedimento em si, levou alguns meses. A cirurgia não podia ser adiada por muito mais tempo, porém pude me preparar.

O primeiro ponto que julgo importante é a decisão de operar. Opções a gente sempre tem, mas para mim ficou cada vez mais claro que se eu não quisesse comprometer minha autonomia no futuro, era preciso operar. Em janeiro de 2017, percebi que fazer uma trilha estava ficando impossível. Fizemos a Pedra Selada, em Visconde de Mauá, e o pé já não funcionava. A descida foi uma provação. O caminhar cotidiano também estava ficando difícil. Mesmo no pedal, estava começando a sentir dores. Tudo indicava que em pouco tempo eu ficaria muito limitado. E autonomia é algo fundamental para mim. Logo, a decisão não foi tão difícil.

Como não achava certo deixar a escola do dia para a noite, esperei acabar o terceiro bimestre para realizar a cirurgia. Usei esse tempo de espera para me organizar. Foram aproximadamente quatro meses. Procurei planejar e preparar a casa para os meses de pós-operatório.

A primeira coisa que fizemos foi trocar o colchão da cama do quarto onde eu iria ficar. Como eu sabia que ficaria muito tempo na cama, preferi me mudar para o outro quarto e criar um espaço que me desse uma autonomia mínima. Em torno da cama de solteiro montei uma estante com livros, uma mesa de apoio e tomadas para recarregar os eletrônicos. O quarto escolhido também me permitiria acesso mais rápido ao banheiro. Por outro lado, Antonia, minha esposa, poderia dormir mais tranquila e confortável sem se preocupar tanto comigo. Além disso, as trocas de roupa de cama ficariam mais econômicas na hora de lavar.

A principal atividade escolhida para esse período foi a leitura. Vejo filmes e séries, mas isso posso fazer em qualquer outro momento. Normalmente, ler não me atrai muito, porque tenho uma falha de convergência ocular. Ou seja, depois de aproximadamente meia hora de leitura meus olhos cansam e começam a lacrimejar. Leio bem devagar. Definitivamente, no meu caso, ler não é uma tarefa prazerosa. Talvez por essa razão, eu não consiga ler romances, apenas livros de estudos. Mas percebi que essa era uma boa oportunidade para investir na leitura. Fiz um plano de ação. Selecionei livros relacionados a fotografia, arte, geografia e filosofia básica, assim como dicionários, textos clássicos e temas afins. Decidi aproveitar o repouso compulsório com algo que normalmente fico adiando. Fui até ao oftalmologista "atualizar" meus óculos.

No banheiro, instalamos uma barra de apoio para o vazo sanitário. Os primeiros banhos foram sentados nele, com ajuda da Antonia. Era um evento! Só depois instalamos duas outras barras no box. E o momento do banho ficou mais fácil.

Antonia não poderia se afastar do trabalho para ficar meses cuidando de mim. E são quase dois meses, para cada cirurgia, sem poder pisar, autonomia zero! As refeições também precisavam ser planejadas. Ela saía para o trabalho por volta das 13h e só retornava pouco depois das 20h. Como eu não tinha acesso a cozinha, diariamente, os alimentos que eu iria consumir nesse horário precisavam ser organizados em uma bolsa térmica e colocados no quarto ao meu alcance. Atualmente a dinâmica continua a mesma, e tem funcionado, não passo fome.

O período “preso” está sendo bom. Estou fazendo meus estudos e não estou sofrendo. É claro que sinto falta de sair, principalmente, de pedalar, mas não pirei. As visitas dos amigos também têm sido ótimas.

A princípio, voltarei a trabalhar em fevereiro de 2019, totalizando 15 meses de afastamento. Mas acredito que mesmo voltando à rotina de trabalho, só voltarei a ter uma vida “normal” lá para 2020. É um processo demorado, estou reaprendendo a andar, o exercício é diário e a melhora é lenta. Ainda não tenho ideia de quando voltarei a fazer trilhas. No momento, meu foco é melhorar corpo e mente. Entre uma cirurgia e outra, descobri um caminho para emagrecer. A última vez que me pesei, antes da segunda operação, já tinham sido 22kg eliminados. Acho que mesmo acamado ainda estou emagrecendo, pois continuo atento à dieta. Além disso, a massa muscular parece estar evaporando! (risos!)

Se posso fazer um resumo, são três os elementos que tornaram minha jornada mais fácil: primeiro, tomar uma decisão e manter o foco; segundo, fazer um planejamento; e terceiro, contar com o apoio de minha dedicada esposa.
 Herbert
13ago2018



Pé direito e pé esquerdo...

Eu e Antonia no meu "ninho", após a primeira cirurgia 
Ainda nos primeiros 15 dias, com gesso (Primeira cirurgia) 

Antonia lendo para mim antes de dormir (segunda cirurgia)

Raio-X do pé esquerdo (5 parafusos)


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